segunda-feira, junho 19, 2006

para minha única leitora, russefinha. O cáp. 3 de "O Catador de Conchinhas".

Essa manhã foi extremamente rendosa e estou plenamente satisfeito por todas as minhas conquistas. Foram conchinhas realmente bonitas que hoje felizmente adquiri.
Foi isso que escrevi quando cheguei em casa depois de datar as conchinhas e enrolar os papeizinhos. Peguei um pedaço de crepe e colei na parede essa anotação que eu tinha feito e que me agradava bastante.
Minha vó foi até o meu quarto e perguntou como tinha sido e eu falei que tinha pegado sete conchinhas muito pequenas, porém muito coloridas e diversificadas. Minha vó perguntou o que era aquilo que tinha na parede e eu falei que era uma anotação que tinha me agradado e que eu tinha colado ali para saber que eu fazia coisas que me agradavam. Ela leu minha anotação e falou que ficaria muito triste comigo se a crepe estragasse a tintura da parede e que eu não devia ter feito isso sem antes consultá-la porque afinal aquela casa era dela. Eu pedi desculpas e ela falou que tudo bem, mas pediu que eu não fizesse mais isso. Falou que quando eu quisesse pendurar alguma coisa o correto era mandar na vidraria para enquadrar e ela mesma pagaria o vidraceiro. Falou que não era nenhuma unha de fome e que o fato de eu estar pensando isso dela era tremendamente ofensivo. Eu tentei falar que não tinha pensado nada, mas ela disse que eu não precisava lhe dar nenhuma explicação e que fosse como fosse ela gostava de me ter por perto.
Eu fiquei no meu quarto a tarde inteira e percebi que o meu quarto tinha mesmo uma cor muito bonita e que seria mesmo uma pena estragar aquela tintura. Eu gostava de deitar no chão e ficar olhando o teto verde até não agüentar mais e ter que piscar. Eu ficava feliz porque, de vez em quando, conseguia ficar uns três minutos sem piscar e pensei que um dia isso poderia ser útil para alguma situação de risco que eu viesse a passar.
Eu saí do meu quarto e falei pra minha vó que estava arrependido do que tinha feito e que daria uma volta para espairecer e ela falou tudo bem e disse que espairecer era uma coisa importante.
Na rua o sol estava se pondo e as pessoas úteis voltavam de seu dia útil. Vi muitas pessoas caminhando com sorrisos e pensei que o mundo era bom mesmo pra uma pessoa útil. Eu comecei a andar e a sorrir também e pensei que assim como eu tinha começado a sorrir depois de ver alguém sorrindo, talvez com todos fosse assim. Pensei que se o mundo fosse menor num curto espaço de tempo estariam todos sorrindo de forma que poderíamos dizer que o mundo está sorrindo e isso não seria só um jeito de falar, mas sim uma verdade que poderíamos constatar ao olhar pra cara de todos e ver que todos estavam sorrindo.
Parei na barraquinha do preto caolho e pedi uma cerveja e ele disse que aquele fim de tarde estava realmente encantador e que por isso todos estavam comprando suas cervejas. Eu pensei que não devia estar bebendo àquela hora, mas que, mesmo assim, era melhor beber andando do que parado. Pensei que se eu sempre bebesse andando minha barriga seria menor e que eu seria mais formoso e desejado pelas mulheres. Pensei também que isso não tinha muito sentido, pois haviam barrigudos que eram desejados e que, na realidade, minha barriga nem era tão grande e que qualquer mulher me desejaria desde que eu conseguisse falar com elas.
(Fiquei muito triste quando pensei isso. Eu não sabia falar com as pessoas e muito menos com as mulheres e de repente vi que a minha vida estava parada porque eu era inapto pra ter relações por mais fúteis que fossem. Eu nunca havia comido uma puta, por exemplo. É claro que eu já tinha tido uma namorada há tempos atrás, mas ela era muito pior que eu e isso me facilitava nas horas em que eu precisava dela para me satisfazer. Ela não era bonita, mas também não era feia. Não sei o que aconteceu dela. Um dia eu telefonei pra ela e disse que a achava pior do que eu e que por isso tínhamos que romper nosso caso de amor. Ela falou OK e disse que não tínhamos tido nenhum caso de amor, que a gente só tinha se divertido um com o outro e que agora ela também concordava que éramos brinquedos velhos).
Eu sentei pra terminar a cerveja e pensei que eu estava fazendo uma figura, como diz minha vó “uma figura”, decadente sentado ali no meio fio. Voltei e sentei nas cadeiras de plástico que tinham ali na barraquinha do preto caolho. Ele falou ‘’que bom que voltou’’ e me trouxe mais uma cerveja. O engraçado foi que ele não me cobrou a cerveja, como se o fato de eu estar sentado me isentasse de ser um marginal. Pensei que se fosse um marginal eu sempre sentaria em todos os lugares.
Ele perguntou se eu queria copo e eu disse que não e ele ficou quieto, como quem pensa ‘’esse cara não quer papo, deixa ele quieto que vendo mais cerveja’’. Pensei que eu devia praticar minha nova atividade de ser simpático, coisa que eu tinha pensado no meio fio como um novo desafio, e falei pra ele ‘’tarde encantadora, não é mesmo?’’ Ele ficou quieto por algum tempo e disse ‘’você é esperto...Usa o que eu falei pra forjar intimidade’’. Pensei que eu era um cara realmente preconceituoso porque nunca imaginei que aquele preto e caolho usaria a palavra ‘forjar’. E ele disse, sem eu dizer nada, que eu devia estar pensando que ele não era capaz de usar a palavra ‘forjar’, mas que, ao contrário do que as pessoas pensam, ele era alfabetizado e que já tinha lido todos os clássicos. “Da Bíblia a Dom Quixote”, ele disse rindo de mim porque tava na cara que eu achava que ele era analfabeto. Eu fiquei em silêncio e ele me trouxe mais uma cerveja porque viu que eu tinha acabado minha segunda lata.
Eu bebi meia cerveja e reuni toda minha coragem e perguntei pra ele: “ É sempre assim?” e ele disse que era assim mesmo, mas que na verdade ele gostava que todos o achassem ignorante porque assim compravam mais cerveja, “como você”, ele disse. Eu sorri e pedi desculpas e ele falou que eu não parecia uma pessoa normal, mas que mesmo assim ele tinha ‘’ido com a minha cara’’, o que era raro porque ele era um ‘’preto e caolho’’ desconfiado. Depois que ele falou isso ele começou a gargalhar e repetir: “Eu sou um preto caolho, é isso, um preto caolho!”. E ele ficou repetindo e rindo isso até que chegou um outro ser humano que sentou na cadeira de plástico do preto e caolho. E ele riu e disse: “Mais um bebendo cerveja na cadeira de plástico do preto caolho!”.
O rapaz que tava do meu lado, depois de um tempo, o suficiente pra eu pensar minhas coisas, perguntou “por que aquele preto caolho estava dizendo aquilo?” e eu disse pra ele que era ‘’porque ele é um preto caolho muito inteligente e que já leu os clássicos, da Bíblia a Dom Quixote”. O rapaz ficou me olhando e balançou a cabeça de forma que me senti diminuído e me fez pensar que eu era mesmo um cara esquisito pra quem ninguém dava bola.
O rapaz foi embora e o preto caolho falou que já ia, mas que antes ia beber uma cerveja comigo porque achava que eu era um cara legal e discreto pra quem ele poderia falar todas as suas intimidades. Eu falei obrigado e ele disse que eu repetia muito essa palavra obrigado e que devia ser algum trauma de infância.
Ele pegou uma lata pra mim e outra pra ele e disse ‘’essa é oferta da casa’’ e perguntou o que eu fazia e eu disse que tinha uma vida besta e ele riu e disse que ele tinha uma vida de besta porque acordava cedo e dormia tarde e nunca ficava rico, que quando ele era jovem achou que poderia um dia parar de trabalhar, mas que isso era pensamento de jovem e que, na verdade, ele jamais conseguiria parar de trabalhar porque era um preto caolho muito inquieto e que gostava do movimento. Eu disse que é difícil ficar em casa sem fazer nada e ele disse que era pior porquê a preta dele era muito braba e se visse ele parado logo o mandava consertar alguma coisa.
Ele falava muito e ria sempre gargalhando, falava comigo como se eu fosse de conversa e repetia que eu era muito discreto mesmo e que já tinha reparado em mim outras vezes. Que eu passava ali sempre e que parecia sempre que ia parar, mas nunca parava e que era por isso que, dessa vez, ‘’excepcionalmente’’, ele estava tomando aquela cerveja ‘’em hora de labuta’’ e que tinha confirmado que eu era mesmo um cara discreto e atencioso. Eu falei obrigado e ele riu gargalhando alto com seu jeito de preto caolho.
Ele perguntou se eu tomaria mais uma lata e eu disse que sim, desde que eu pagasse porque, afinal, ele estava em hora de labuta e porque não era rico. Ele riu gargalhando e disse “Sim, sim” e me contou um monte de coisas sobre sua preta perversa, que o obrigava a sair de casa, mas que mesmo assim ele a amava ‘’profundamente’’. Pensei que todo aquele papo era muito chato, mas que o preto caolho era ótimo embora falasse coisas chatas. Fiquei pensando que eu não deveria ter tomado mais aquela cerveja porque eu tava começando a achar o preto caolho um chato que falava muito, mas que esse era meu novo desafio e que eu deveria me resignar.
O preto caolho fechou sua barraca e falou que se eu quisesse poderia sempre tomar aquela cerveja com ele as segundas feiras porque era o dia de filme na tv e que aí a preta dele não ia maltratá-lo por estar chegando em casa tão tarde e levemente embriagado.
Na volta pra casa eu estava muito satisfeito porque eu tinha falado com um estranho e pensei que com algum esforço eu me tornaria um cara mais ou menos normal. Pensei que devia ser normal achar o papo das pessoas chato e preferir ficar sozinho e pensando em miudezas, que se eu não tivesse esse novo desafio eu ficaria três dias em silêncio e andando só olhando pro chão que é o melhor jeito de andar pensando.
Minha vó tava na sala e falou que eu estava impossível, que parecia que eu tava regredindo porque só naquele dia eu já tinha feito duas coisas erradas, eu pedi desculpas e ela falou que era só telefonar porque ela era velha e se preocupava comigo porque me amava profundamente. Pensei que talvez toda mulher fosse perversa e fiquei olhando minha vó e pensando na preta braba do preto caolho. Ela falou que eu estava errado de novo porque eu tava olhando pra ela com desprezo e que não ia me fazer nenhum sanduíche porque eu devia pensar melhor no que tinha feito.
Eu comi dois ovos cozidos e fui pro quarto deitar e olhar o teto verde. Peguei meu caderninho, mas fiz apenas um desenho porque eu não consegui escrever nada. Antes de desligar a luz eu pus meu óculos de sol e fiquei olhando a lâmpada que estava meio oscilante. Eu pensei que já havia muito tempo que aquela lâmpada não era trocada e que amanhã eu trocaria a lâmpada sozinho, sem nem avisar minha vó, só pra ver se ela iria notar. Pensei que seria um tipo de vingança e que se ela notasse eu negaria apenas para me vingar ainda mais.

1 Comments:

At 12:58 PM, Anonymous Anônimo said...

Fernandinho!!
Até q enfim voltaste a escrever a saga!! Acho q o personagem da história é realmente vc, parece - me uma certa projeção!!Sei lá... pode ser q eu esteja viajando, mas é apenas minha impressão!hehehe Agora quero saber se a avó vai ficar bolada com ele ou não!
Bjs,
Ps: Adorei a homenagem!

 

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